segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Amor doentio

 O cheiro que ela deixava quando passava era semelhante ao de um roseiral em plena primavera. Seus cabelos negros combinavam em perfeita sintonia com sua pele morena.
Seus lábios carnudos me enchiam de desejo de possuí-los apenas para mim e seus olhos verdes me banhavam como uma cachoeira límpida no verão. Como era bela. Dona de uma beleza arrebatadora que fascinava-me do primeiro momento em que olhava em meus olhos até mesmo quando não estava por perto.
Vê-la me deixava mais contente, alegrava-me o dia e o pesar da noite, como desejava beijar-lhe até que ela se derretesse em meus braços, como queria misturar-me a ela como o sal a água se mistura, ah como queria, só Deus sabia.
As vezes que tentei me aproximar, mas foram tantas vezes falhas que ficava por lhe admirar de longe.
Quieto em meu canto, apenas apreciando a forma como caminhava suavemente, o quadril em perfeito sintonia com os braços, como uma modelo em um desfile de moda.
Seus gestos já me eram totalmente conhecidos. Nada me passava despercebido aos olhos, nem aquele sorriso que ela exibia quando estava preocupada, ou a forma como bagunçava o cabelo e logo após o ajeitava com os dedos entrelaçados nas madeixas, de forma tão casual e pueril, que nem mesmo ela deveria notar que o fazia.
Passava dias a desenhar seu perfeito rosto ,tirava fotos sem que notasse, fazia planos para conquistá-la Enviei-lhe flores, tulipas vermelhas, suas preferidas, e a cheirar o buque que recebia, ela se punha a sonhar... mas para meu desgosto e cólera, não comigo.
Achou que as flores que recebera eram de seu vizinho bonitão, o qual se aproveitara de meu anonimato, e passara a fingir ser seu admirador secreto.
Observar aquela situação de longe e sem coragem de gritar para todos ouvirem que eu é quem era apaixonado por ela, só me fez ter raiva. E, num instante, deixei de amá-la, para começar a odiá-la.
A odiava por nunca ter me notado, odiava a mim mesmo por não ter me pronunciado.
Meu desespero só fazia aumentar, especialmente naquela noite em que descobri para meu pesar que o tal do vizinho a pedira em namoro.
Fiquei desgovernado, fora de mim mesmo.
Peguei meu carro e fui para o bar mais próximo. Afogar as mágoas era-me a melhor opção.
Sai de lá sem pagar e com os olhos queimando de fúria. Dirigi até sua casa esperando o momento em que fosse sair com seu amado. Na calada da noite, ele aparece para pegá-la e fazer um passeio pelas ruas da cidade.
Aquela era a oportunidade ideal. Acelerei o carro. Não me importariam as consequências, tê-la fora de minha vida seria angustiante, então, sem pensar e sem conseguir enxergar meu caminho, atropelei o namorado de minha amada.
A bebida afetara-me seriamente, pois não havia previsto o pior: os dois estavam juntos.
Atropelei não só o sacana, mas também minha amada. Desci do carro cambaleando e a vi definhar em sangue. Sua cabeça estava completamente vermelha, e, segurando as mãos de seu vizinho, ela fechou os olhos, e dormiu profundamente pela eternidade.
Entrei no carro e fugi antes que pudesse racionalizar quanto ao que eu fizera, ou que alguém me descobrisse.
Fugi!

Nunca pensei que chegaria a esse ponto, mas, consegui o alcançar, a ponto de amar um amor doentio que me leva a matar.

Links de Grupos Zap