segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Aproveitar o Dia

Seus olhos claros ganhavam forma a medida em que o Rímel lhe tocava os cílios, e com um traçado fino de delineador seu olhar se destacava.
Safira!
Um nome tão belo quanto sua face, mas tão misterioso quanto a dor que lhe acometia.
Seu sorriso puro e jovial lhe servia de disfarce. Se arrumava para esconder a dor, para fugir do amor e levar seus dias em harmonia.
Até quando aguentasse a luta, sem deixar-se ser vencida facilmente em nenhum dia de guerra que havia traçado contra si mesma.
Finalizava a sessão de beleza ajeitando as madeixas. Um lado parecia maior do que o outro, mas não havia importância para isso agora.
Nada mais importava!
Ensaiou na frente do espelho o sorriso mais bonito que conseguira dar, e, tomando sua mochila nos braços, seguiu o caminho da escola.
Há tempos não fazia aquele caminho, que tinha medo de que não a reconhecessem mais.  Havia mudado, mas sempre existe algo maior que permanece.
Seus olhos cintilavam de alegria ao ver os rostos tão conhecidos, os quais , traziam tanta paz.
Seus amigos eram o melhor presente que poderia ganhar, e a presença deles naquele momento já era suficiente para causar-lhe uma reviravolta tremenda em sua superfície.  Teve vontade de chorar ali mesmo, mas se conteve.  As pessoas não precisavam saber. Ao menos não por ora.
A escola já começava a se tumultuar. Voltar de férias é estranho.  Sentia que aos poucos já não pertencia mais àquele lugar. Àquelas pessoas.
Não recebera muita atenção. Não era popular, e as fofocas que rolavam pelos corredores eram mais importantes e  fundamentais do que quererem saber como Safira estava indo.  O que fizera e o quanto isso havia mexido com ela.
Tudo estava normal, a anormalidade estava nela, em suas atitudes.
Sua sala continuava lotada. Pelo visto, ninguém havia desistido ou os abandonado.
Menos mal, pensou ela. Queria a todos, inclusive aqueles com quem não conversava, perto de si.
O ritmo das aulas também era o mesmo, mas, embora ela pudesse notar que as atitudes de todos eram comuns para com ela, havia um sentimento diferente em seus olhares.
Seria angústia? Pena?
Não sabia ela, apenas que aquilo lhe causava uma certa aflição.
- Você está bem? - A voz vinha de sua esquerda.  Eram os olhos castanho escuros de sua melhor amiga que brilhavam em sua direção, sua voz estava seca, mas soava como uma melodia para seus ouvidos.
Safira apenas balançou a cabeça  afirmativamente, tentando convencer mais a si mesma do que à outra.
As aulas passaram rapidamente, e o tempo voando.
Já estava na hora de ir embora. O sono tomava conta de si, mas antes que pudesse ir, uma corrente de abraços a envolveu.
Era tão bom ser querida.  Era tão bom ser amada, e era justamente por esse amor que ela levantava todos os dias.
A soltaram, então Karol, sua melhor amiga de olhos escuros, entregou a ela um bilhete.
- Sentimos sua falta.  - sussurrou em seu ouvido, permitindo que Safira finalmente pudesse ir para casa.
O caminho não parecia tão longo quanto na ida.
Jogou sua mochila no sofá. Sua mãe já nem reclamava mais, havia se tornado um hábito.
Foi para seu quarto e trancou-se lá, deitando na cama.
Retirou do casaco o bilhete que recebera da amiga.
Nele havia apenas uma frase, mas foi suficiente para encher a seus olhos de lágrimas, as quais ela tentara conter o dia inteiro:
"Estarei contigo até o fim, minha irmãzinha..."
Safira segurava trêmula aquele pedaço de papel, enquanto em uma voz embargada pela emoção ela sussurrava:
-  Infelizmente não estarei com você até o fim, amiga. - A tristeza lhe invadia, e já não havia motivos para se esconder atrás de sua maquiagem.
Tirou de seu rosto tudo aquilo que a impedia de ver a si mesma naturalmente.
Mas só faltava uma coisa.  Com toda a delicadeza que ainda lhe restava, puxou as madeixas de perfeito cacheado, deixando à mostra a cabeça brilhante, de topo careca.
Se sentia nua. Se sentia horrível, mas nada poderia fazer para mudar sua condição.
Sem trocar de roupa, foi deitar-se, torcendo para que aquele não fosse o último dia que o câncer lhe permitisse viver.
Sabia que sua luta ainda não tinha chegado ao fim, e, enquanto houvesse forças, ela iria lutar, e viveria seus dias como se cada um fosse o último.
Até que o último chegasse.

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